sábado, 31 de maio de 2008

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Centenário da morte de Machado de Assis

Ao Leitor

Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havê-lo escrito para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Stern, de um Lamb ou de um de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia; e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; e ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.
Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o meio eficaz para isto é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Brás Cubas

(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

domingo, 18 de maio de 2008

Poema que aconteceu

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 4 de maio de 2008

Polaróides Urbanas

Acabei de assistir Polaróides Urbanas, do Miguel Falabella. Gostei do filme, mas saí do cinema com uma ponta de frustração. Eu esperava dar boas gargalhadas com uma comédia escrachada, no estilo do Toma lá Dá cá, mas trata-se na verdade de uma tragicomédia, que encontra situações engraçadas nas pequenas tragédias cotidianas de um grupo de mulheres, e das pessoas que giram em torno delas, cujas vidas são entrelaçadas por algum elemento em comum.
O filme me agradou, mas ao mesmo tempo me deixou com uma sensação de desconforto. Acho que a palavra certa para o que ele me provocou é estranhamento.